Sugestão de leitura Processo nº01.03.07

Título: Mad about the fifties
Autor: The usual gang of idiots
Editor: Mad Books
Data: 2005
Suporte: Livro
ISBN: 1-4012-0753-7

Se a bd na sua génese era uma arte para uma burguesia dos Oitocentos que se divertia com imagens satíricas e caricaturais da política e da sociedade, pouco a pouco tornou-se num media popular para classes iletradas e para crianças. E cada vez que a “Censura” avançava mais um pouco, mais tradicional se tornou.

O apogeu da infantilização da bd foi os anos 50. Ao que parece nessa década cada Estado tinha o seu motivo para controlar a popular bd. Em França havia uma “Loi de la Jeunesse” que proibia uma série de temas (“negativos”) para os jovens. Em Portugal para além de não poder haver jovens com vestes atrevidas nas vinhetas, ainda por cima tinha-se de tratar de temas históricos para elevar a moral nacionalista. Em Espanha, cortavam as pistolas das bd’s de westerns – bang disparavam os cowboys em seco! A história mais conhecida de censura na bd vem no entanto dos EUA onde se vivia a “Caça às bruxas”.

Em 1954, o livro Seduction of the innocent do psicólogo Dr. Fredric Wertham, fez sucesso ao promover a estranha teoria que ligava a delinquência juvenil com a banda desenhada. Parte dessa acusação passava pela popularidade da linha de comic-books (revistas de bd em fascículos de 17x23cm) da editora EC Comics, que se dedicavam aos géneros de “Crime”, “Terror” e “Fantástico”, feitos com alguma mestria e alguma inovação estética. Foi criado, pelo Congresso, um comité de inspecção e a forma da indústria da bd se salvar destas acusações foi criar um código de censura para todos os comics antes de saírem para os quiosques. Acabavam-se as mutilações e outros maus gostos.

Quem perdeu mais com este “Comic Code” foi a EC Comics. Mas sem saber a editora já tinha produzido o anti-corpo necessário para salvar o seu negócio. O anti-corpo chama-se Mad e era um “comic-book” de humor e sátira, criado pelo dono William Gaines (1922-1992), para que um dos seus autores mais sofisticados, Harvey Kurtzman (1924-1993), pudesse “viver melhor”. Kurtzman produzia excelentes bd’s bélicas mas não em quantidade suficiente para receber um bom ordenado, pois perdia muito tempo em pesquisa (considerada pelos seus contemporâneos como obsessiva) sobre pormenores de uniformes, histórias de ex-combatentes, dados históricos e técnicos. Gaines, lembrou-se de criar um comic-book que não fosse muito exigente em que Kurtzman pudesse fazer entre as demoradas bd’s bélicas.

A Mad era feita pela mesma equipa das revistas de terror da EC mas dedicada a gozar com a cultura Pop que emergiu nos anos 50. Filmes como o “King Kong”, bd’s como as do “Super-Homem” ou os desenhos animados da Walt Disney eram parodiadas e ridicularizados nas páginas da Mad, algumas replicavam o estilo de desenho de outras bd’s como por exemplo as do “Archie”. A ideia da paródia vinha da tradição das “Tijuana Bibles”, revistas pornográficas dos anos 20 e 30 que colocavam personagens de bd e figuras públicas (gangsters, actores de cinema, jogadores de basebol) em situações explícitas de sexo. Kurtzman e a sua “a gangue de idiotas de sempre” de certeza que conheciam estas publicações underground (vendidas “debaixo do balcão”) controladas pela Máfia e “vindas do México” (um mito), que deliberadamente violavam o “copyright”. E é este abuso dos direitos privados das personagens públicas colocadas em situações absurdas – o Batman surge-nos como um vampiro, ou o King Kong é um gorila minorca – que a Mad revelou que existia uma vontade do publico em fantasiar as suas personagens favoritas para além dos ambientes controlados dos seus donos/ editoras. Uma fórmula de sucesso que a partir do quinto número começou a dar lucro – os primeiros quatro números deram prejuízo ao ponto de quase cancelaram o título.

Este volume originalmente editado em 1970, que agora está disponível aos utilizadores da Bedeteca de Lisboa (e das BLX) vamos encontrar nas suas páginas as reedições dos primeiros tempos da Mad, ou seja, as bd’s (ainda a cores) dos tempos em que tinha o formato comic-book por Bill Elder (1922-2008), reproduções das suas capas “malucas”, os cartoons a preto e branco depois de se transformar em revista – Kurtzman achou a dada altura que o formato comic-book era limitado e obrigou Gaines a transformar a Mad numa revista, o que revelou ser uma boa estratégia porque assim  já não teria de passar pelo código de censura da bd.

Foram estas as razões que fizeram da Mad o único título sobrevivente da EC Comics após o “Comics Code” e existir até aos dias de hoje. Mad about the fifties é uma boa oportunidade de ler a sua origem. E já agora, a Bedeteca de Lisboa tem para consulta uma série de números da revista, entre 1967 e 1979, bem como livros de alguns dos seus mais conhecidos colaboradores como Kurtzman e Sérgio Aragonés.

Deixe um comentário

Filed under acervo da bedeteca, bd estrangeira

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s