Regresso da Fantasma!

É o regresso da Mundo Fantasma às lides editoriais depois de uma curta carreira entre 1999 e 2004 em que inseriram no mercado português nomes importantes como Étienne Davodeau, Stanislas, Joe Sacco (Palestina) ou Daniel Clowes. Regressa agora com Diário Rasgado 2007/2012 de Marco Mendes, segundo livro que compila as BDs autobiografias deste autor – o primeiro foi editado em 2008.

O lançamento está marcado para AMANHÃ, na loja Mundo Fantasma, às 17h.

Sobre o autor, pirateamos este texto sacado no programa do Festival de BD de Beja de 2009:

Porque Portugal não gosta de si…

O Marco Mendes (1978, Coimbra) desde 2004 têm se afirmado como autor de bd’s “pedaços-da-vida” registadas como autobiografia e desenhadas de forma suja e urgente, ao contrário do que as suas participações na antologia Mutate & Survive (Chili Com Carne; 2001) e na revista Quadrado (Bedeteca de Lisboa; 2003) apontavam. Nessas publicações vamos encontrar um virtuoso desenhador de estilo “Pop Art” ou seja, com tudo limpinho, bonitinho, em ordem…
Não sei o que aconteceu em 2004 mas é nesse ano que Marco junta-se a Miguel Carneiro e outros artistas para criarem o colectivo Os Gajos da Mula (no Porto) e desatam a editar zines com títulos escabrosos como Paint Suck’s!, Lamb-Heart (onde são publicados fantásticos desenhos de Marco quando era puto!), Hum, Hum! Estou a ver!…, Estou careca e a minha cadela vai morrer e Cospe Aqui. Mais recentemente faz com Janus o zine O projecto de fecundar a lua e com a sua companheira Lígia Paz o Carlitos.
As bd’s que publica em todos estes títulos parecem “inacabadas” – ou seja, estão “ainda” a lápis, não foram passadas a “limpo” (ou a preto), algumas pranchas até tem algum ensaio de cor. A perícia técnica “naturalista” a que a maior parte da bd está associada está lá mas parece que estamos antes a ver esboços do que um “produto final” até porque os textos estão cheios de palavras riscadas ou saem dos limites dos balões ou das caixas. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os formalismos e convenções de escrita e do desenho que habitualmente estamos habituados a ver/ler na bd. O que é necessário é colocar o amigo Janus, por exemplo, entre outras pessoas reais a falarem banalidades – e de preferência embriagados.
Marco vive uma altura fantástica no que diz ao mundo da bd – aliás, é a BD que vive uma altura fantástica de expansão no mundo infiltrando-se tanto na galeria de arte (por acaso Marco é representado por uma) tanto como na livraria generalista tal é a riqueza de propostas que tem oferecido nas últimas décadas. Uma das razões desta riqueza deve-se também aos desenvolvimentos tecnológicos da impressão que permitem reproduzir as tais “bd’s inacabadas” com uma qualidade impensável para quem se via à rasca (por exemplo) com a fotocopiadora dos anos 80. Marco tal como muitos autores a nível mundial – da Anke Feuchtenberger aos Elvis Studio, da Amanda Vähämäki ao Brian Chippendale – podem imprimir as bd’s “urgentes” em formatos baratos, como um zine fotocopiado, sem ter de passar pelos processos de desenhar o lápis e depois a tinta onde se costuma perder a espontaneidade do primeiro registo.
Desde os anos 60 que se tem quebrado a lógica da divisão de tarefas na bd – vindo do “fordismo” dos “comics” desde anos 30. Robert Crumb e Moebius cada um do lado do Atlântico e à sua maneira trouxeram a “escrita automática” e o “cadáver-esquisito” para a bd. Harvey Pekar trouxe a autobiografia tão ou mais importante que as “freakalhices” dos outros dois monstruosos autores. Finalmente na bd podíamos TER realidade… um registo do que é o mundo em bd – algo impossível de ter com as distorções caricaturais ou escapistas que a bd estava associada.
Em Portugal existe “bd de autor” desde 1975 com a revista Visão mas são poucos as obras que digam o que “é Portugal” na bd. Na Visão apareceram alguns contos sobre o Ultramar, aqui e ali pode-se encontrar algumas aproximações biográficas (mais “realistas”? mais “intimistas”?) da sociedade portuguesa pós-25 de Abril – Relvas, Luís Félix, Diniz Conefrey, Ana Cortesão, Janus e até Arlindo Fagundes poderão estar nesta mini-lista que tem origens em Raphael Bordalo Pinheiro e ruptura em Carlos Botelho.
Daqui umas décadas os Historiadores ainda irão pensar que a bd é um produto infantil porque terão dificuldades em encontrar obras que lhes digam o que raios os portugueses sentiam, faziam ou que paisagem lhes rodeava desde 1950 (ano que Botelho deixa de fazer os “Ecos da Semana”), no máximo poderão saber que havia boémia e uma cena artística no Porto ou empregos miseráveis em Portugal! – Marcos Farrajota

Deixe um comentário

Filed under acontecimentos, bd portuguesa, mercado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s