Fiche-moi le camp!

Estivemos estes dias todos embriagados com os belos acontecimentos desta semana… Primeiro, passamos pela invicta galeria da loja Mundo Fantasma onde vimos uma das excitantes exposições de BD da actualidade anunciada aqui. Lixo Futuro??? Presente de Luxo! Parabéns aos organizadores e a esta nova geração de autores portugueses de BD pela surpresa exposta!!!

maria+josé+pereiraA outra boa notícia foi ler este artigo no sítio “bedófilo” Central Comics sobre o mercado português de BD em que topámos que a Maria José Pereira (na foto, sacada nesta entrevista nula) já não trabalha na Asa / LeYa. Finalmente parece que se reformou ou levou um pontapé no rabo (tanto nos faz) tal é esta figura que durante décadas fodeu (desculpem, não há outro termo) o mercado da BD portuguesa, seja na sua demanda comercial seja nas possibilidades de encontrar uma “nova BD” ou novos públicos.

Começou a sua negra carreira na defunta Meribérica/Liber, que continua a ser um marco editorial pelo seu sonambulismo e redundância. Quando este monolítico barco afundou-se no virar do milénio, Pereira esteve ligada à criação da Booktree, outra coisa balofa inexplicável, fugindo prá Asa poucos meses depois para dar cabo de vez do mercado editorial que se estava a (re)criar nos meados de 2000.

Graças ao “dumping” de álbuns franco-belgas de BD destas duas editoras, a Asa e a Booktree (e já agora, a VitaminaBD, Devir e Witloof), o espaço de exposição de BD de autor vindo dos esforços da BaleiAzul, Polvo, Círculo de Abuso, Chili Com Carne, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma e Nova Comix, foi soterrado por obras anacrónicas e sem sentido para um novo público à procura da “graphic novel” entretanto formado pelos esforços da Bedeteca de Lisboa e do seu Salão Lisboa (1996-2005), e do Salão de BD do Porto (1993-2001).

Conta-se secretamente entre os editores que por volta de 2004, a cadeia de lojas FNAC devolveu toneladas de livros em camiões Tir, devoluções de álbuns de BD franco-belga que não se venderam. Mesmo assim, José de Freitas (ex-Devir, actual Levoir) no tal artigo, ainda acha que «o último boom que vivemos em Portugal – de 2000 a 2004 – esse foi um boom de facto, porque havia projectos e direcções por trás das editoras que se propuseram editar BD regularmente».

Editar regularmente sem se vender e queimando a terra de todos não nos parece nenhum “boom” mas uma valente caganeira. As lojas desconfiadas passaram ainda a ter menos espaço prá BD e com isso, pequenas editoras independentes tiveram ainda mais dificuldade em entrar em grandes sistemas de distribuição / comercialização, impendindo a publicação da BD que interessava realmente para o público do século XXI – porque será que só agora é que se editam livros como Persépolis? Como se explica isto? Simples, Pereira faz parte daquela geração de funcionários de empresas (recusamos a chamar estas pessoas de “editores”) que vão para festivais da especialidade estrangeiros para se sentar num café a ouvir os resultados, por megafone do evento, os vencedores dos “álbuns do ano”, para depois mexerem-se a comprar os direitos para Portugal. Não queremos dizer que ela tenha feito isto ipso facto, mas esta imagem já nos foi relatada tantas vezes por pessoas que foram aos festivais de Angoulême ou de Bolonha (no caso da ilustração para a infância) que acreditamos que a senhora em questão não saiba quem é o Robert Crumb ou Arne Bellstorf justamente por fazer parte desta “caricatura real”.

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1 Comentário

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One response to “Fiche-moi le camp!

  1. José de Freitas

    Acho que é difícil encontrar maior chorrilho de confusões e enganos sobre a realidade do mercado de BD do que o que aqui foi exposto. Passo a fazer algumas correcções, e apenas no que me toca como ex-editor (e sócio) da Devir (mas há outras).

    Em primeiro lugar, misturar “Devir” e “dumping de ábuns franco-belgas” na mesma frase revela ou uma imaginação tremenda, ou uma enorme ignorância, considerando que a Devir editou no total da sua carreira, que totaliza certamente uns 200 livros, DOIS álbuns inteiros de franco-belga. Três se incluirmos aqui a co-edição que fizemos com a Witloof do Dr. Jekyll e Mr. Hyde do Mattoti, mas desse talvez possamos dizer que só o formato é franco-belga. O dumping parece que estava a preço de saldo! Acrescento que nunca recebemos toneladas de devoluções da FNAC, apenas as normais, duas vezes por ano, e que raramente excediam uns 5-8% do total comprado por eles.

    O que o texto parece indicar é que acha que existe alguma virtude e ser-se um pequeno editor independente. Não existe nenhuma, se se fôr um mau editor ou incompetente noutras áreas da edição (ie. gestão, publicidade, etc…). E muitos dos trabalhos das editoras citadas (BaleiAzul, Polvo, Círculo de Abuso, Chili Com Carne, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma e Nova Comix) eram maus. Aliás, o texto ignora completamente outros aspectos, entre os quais os de que a grande maioria dos (poucos) livros da Mundo Fantasma editados naqueles anos, o terem sido em co-edição e com o apoio e distribuição da Devir (refiro-me por exemplo ao Palestina e aos livros do Davodeau). Ignora aliás, também, que se não houver um mercado de BD “mainstream” não pode existir um mercado de BD independente. A menos que se considerem tiragens de 100 ou 200 um mercado. Eu não considero.

    Quanto à pergunta que se faz de “porque é que só agora é que se edita o Persépolis” a resposta é mais uma vez super-simples: já se tinha editado, mas quando a Polvo pegou no livro da Satrapi, e o editou, há MAIS de dez anos, fê-lo numa edição tão fraca, tão pobre, tão…. poucochinha… que o detentor dos direitos levou anos a recuperar do trauma e a considerar novamente vender os direitos para Portugal. Digo isto aqui frontalmente como o disse ao próprio Rui Brito em pessoa, na altura, mesma razão pela qual lhe louvei o esforço de fazer do Três Sombras, que lançou em 2012, uma edição muito decente.

    Mas eu assino sempre os textos que escrevo.

    José de Freitas

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