Guerra na Amadora

TARDI_coniteWEB_Final2

A BD Amadora já mexe com as exposições satélites, a mais excitante será esta Putain de Guerre – Guerra das Trincheiras de TardiConsiderado um dos mais importantes autores de Banda Desenhada franceses e um dos mais influentes do mundo, Jacques Tardi apresenta nesta exposição trabalhos de três álbuns do autor dedicados à Primeira Guerra Mundial: Putain de Guerre, C’était la Guerra des Tranchées e Chansons contre la Guerre [exposição que deverá ser a que foi produzida no Festival de Angoulême no ano passado?].

Segundo Carlos Pessoa, crítico e jornalista especializado em Banda Desenhada, “é perfeitamente possível imaginar as longas noites de Inverno do pequeno Tardi, nos anos difíceis da reconstrução da Europa destruída pela II Guerra Mundial, a ouvir histórias contadas pela sua avó. E também se pode calcular que muitos desses relatos não foram contos de fadas ou histórias tradicionais da rica oralidade europeia, mas episódios vividos por Paul Tardi, seu avô, nas trincheiras da I Guerra Mundial. Esse avô corso que esteve em Verdun, foi ferido várias vezes, chegou a ser gaseado e não dizia uma palavra… Tardi também terá ficado suspenso das descrições do seu tio-avô, sobrevivente de guerra, mas com sequelas de um ferimento de obus, explicando-lhe com detalhe como lhe puseram vermes no penso para eliminar os tecidos gangrenados da ferida. E depois vieram as histórias do seu próprio pai, René Tardi, essas já situadas no ambiente da II Guerra Mundial, onde conduziu um carro de assalto”.

As cartas e os diários, os testemunhos de soldados nas trincheiras, as fotografias, as imagens dos uniformes, o armamento, são segundo Carlos Pessoa “outros tantos elementos que permitem a Tardi recuperar a “sua” atmosfera da guerra, enriquecida com a experiência de deslocação pessoal a muitos locais das batalhas. Tudo isto para tornar possível ao leitor impregnar-se do ambiente quotidiano do soldado e apreender o tremendo sofrimento físico e emocional dos combatentes. As histórias de Tardi são curtas narrativas de situações vividas por homens deprimidos e roídos pelo medo nas trincheiras ou na terra de ninguém – a excepção é Putain de guerre!, em que o autor privilegia uma perspectiva cronológica. Não há heróis, mas apenas soldados que são vítimas de uma guerra absurda e sem o menor sentido. Graficamente, apresentam-se muitas vezes como meras silhuetas, simples reflexos, sem profundidade, de seres que há muito perderam a condição de homens livres. Vivem esmagados pelo peso das mochilas e do armamento que transportam às costas, mas sobretudo pelo próprio conflito, que lhes assenta sobre os ombros com todo o peso do mundo.

 A denúncia dos horrores da guerra, a afirmação de um pacifismo radical e o desmascaramento do papel “redentor” da religião no conflito, vão a par com um olhar sarcástico sobre a liturgia e a simbólica patrióticas, com os seus monumentos evocativos ao soldado desconhecido, cerimónias comemorativas, medalhas, desfiles de antigos combatentes e outras evocações com que foi construída uma certa memória colectiva do conflito”, conclui.

79ef3f7b4ae04711972c66e165d3f01bDentro do mesmo tema também é de destacar a exposição Artistas Portugueses na Grande Guerra realizada no âmbito da exposição Portugal e a Grande Guerra, na Academia Militar da Amadora, nos Paços do Concelho da Amadora (Piso 1) e irá estar patente até 11 de Novembro.

Comissariada por Osvaldo Macedo de Sousa e produzida pela Câmara Municipal da Amadora, esta é uma exposição com trabalhos de sete artistas-militares, considerados dos mais importantes, pela estética e pela quantidade de trabalhos realizados: José Rodrigues Brusco Júnior, J.J. Ramos, João Menezes Ferreira, Arnaldo Garcêz, Adriano Sousa Lopes, Christiano Cruz e António Balha e Melo. Tendo como ponto de partida África, com Brusco Júnior, J.J. Ramos e João Menezes Ferreira, a exposição passa depois para a frente europeia onde todos os artistas estiveram, mostrando croquis, desenhos, pinturas, fotografias ou postais.

Segundo o comissário, “há muitas formas de abordar a Grande Guerra de 1914/18, e uma das mais interessantes é pelo lado artístico já que, não só a arte viu-se usada como instrumento de guerra, pela revolução nos sistemas de comunicação social e publicitária (em que o lápis e a câmara fotográfica tiveram de se confrontar pelo seu espaço), como serviu de catarse de muitos dos que por lá passaram”.

No caso desta exposição, “por vezes os trabalhos espreitam o humor, outras vezes são croquis que documentam momentos, outros desenhos e pinturas trabalhadas na alma do soldado-artista que viveu o horror, o medo, a vontade de sobreviver. Do traço anedótico ao naturalista, encontramos também ousadias modernistas sendo contudo, o mais importante, a imagem da guerra nesta visão que só a arte nos pode dar” e conclui: “esta é a mostra possível, entre as centenas de trabalhos dispersos por instituições e colecções particulares. É uma visão muito geral das várias tendências estéticas da época como um retrato vivo, sentido na alma, dos que lá estiveram. É a mostra que apenas deseja que não nos esqueçamos destes nomes, destas obras, destas estéticas sentidas e fundamentais na história do país”.

A exposição pode ser visitada de Segunda a Sexta, das 9h às 17h e aos fins-de-semana das 15h às 19h e a entrada é livre.

Deixe um comentário

Filed under acontecimentos, bd estrangeira, outros media

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s