Sugestão de leitura Processo nº19.10.15

Tal como rapinamos os textos sobre BD da rede BLX, lembramos de sermos nós agora a escrever sobre alguns livros do acervo da Bedeteca de Lisboa – acervo que fartamos de divulgar, diga-se, sem ganhar nada com isso… Sendo nós leitores anónimos da Bedeteca decidimos por um livro que trata de BD feita por autores anónimos! Aqui vai:

594c095cd7ee441f99f4598f44e36174Título: Tijuana bibles : gli eroi della comic strip nei vecchi fumetti fuorilegge : dagli anni trenta al dopoguerra

Autor: G.D. Jachini, ed. lit.

Editor: Hazard

Data: 2001

Suporte: Livro

ISBN: 88-86991-69-X

Esta leitura pouco irá ajudar na resposta quando se coloca se “a BD é arte?” ou “a BD é para adultos?” Infelizmente quando se pergunta isto, quem responde do lado dos cultores da BD sem cérebro é que “Sim! Há o Manara, o Crepax, a Druuna”… Para quem não sabe estas são na essência autores e/ou obras eróticas ou pornográficas – venha o Diabo e escolha – com arte impressionante quase sempre pelos universos fantásticos e virtuais que criam – embora Crepax mereça um destaque em relação aos outros pelas ousadias na manipulação da linguagem da BD. A pergunta é complicada porque o que se deve perguntar é se há BD “artística” o que soa a pedante… e noutros tempos queria dizer pornografia na mesma.

Em alguns países, o problema da BD começa logo pela sua nomenclatura que chega a contornos ridículos como “comics” ou “fumetti”. Sorte a nossa, a portuguesa, cujas expressões “Histórias aos Quadradinhos” ou “Banda Desenhada” ainda escapam a “cómicos e fumo” apesar dos termos que impõe a “tiras” ou “quadrados”… E claro, há desde dos anos 90 a coqueluche da “novela gráfica” que pode abrir para outras expressões como “romance gráfico”, “conto gráfico” e “poesia gráfica” como se fossem sub-géneros para tipos de BD, a lembrar o que acontece noutras formas de Arte em que existem expressões como “cinema documental” ou “black metal” que definem imediatamente os seus campos de estilo e conteúdo.

Talvez seria bom que a BD começasse a ter mais expressões para podermos definir os seus tipos evitando-se discussões como neste “post”. O caso das Tijuanas Bibles é dos poucos dentro da BD em que não há confusão. A sua denominação define o formato e o conteúdo, são BDs de 8 páginas (era outro nome que tinha, “eight-pager”) de pornografia com ar amador feitas nos EUA, tendo o seu pico de popularidade nos anos 30 e 40 – foram feitas até aos anos 50 mas a Playboy deve ter dado conta do recado. Geralmente eram colocadas personagens de BD e figuras públicas (gangsters, actores de cinema, jogadores de basebol) em situações explícitas de sexo. Apesar do seu aspecto vulgar e dos estereótipos raciais e sexuais que promovia – algumas vezes menos nos sexuais e mais nos sociais ou raciais, diga-se em defesa do Wimpy a sodomizar o Popeye enquanto este copula com a Olívia Palito  – ainda há alguns detalhes interessantes a contar sobre este livrinhos “porcos”… Para já como objectos têm um lado mitológico porque eram publicações ilegais, vendidas “debaixo do balcão” sob controle da “máfia”, ao que parece Will Eisner chegou a ser abordado para fazer uma dessas BDs e conta que o tipo que o contacto tinha um “ar manhoso”.

A produção era feita por autores anónimos sendo que os estudiosos conseguiram identificar um ou outro. Ninguém assinava estes livros nem gostaria de ser reconhecido por trabalhar neles. Era um “biscate” quando o “cinto apertava”. O nome destes livrinhos dão-lhe origem ao México porque dizia-se que eram produzidos lá, mostrando a xenofobia latente da sociedade norte-americana mas também o seu puritanismo – um americano nunca faria uma indecência destas, claro, tinham de ser os “porcos dos estrangeiros”! Como foi escrito anteriormente, as BDs usavam figuras públicas como personagens em cio ardente, o que representava um desafio à real popularidade do “star system”. Houvesse quem ficasse preocupado se não fosse representado numa “tijuana bible” porque isso significaria que não seria famoso o suficiente.

Outra questão interessante e inédita em relação à cultura popular que as Tijuanas promoviam era a violação da propriedade intelectual, como afirma Art Spiegelman a razão do sucesso destas BDs passava pelo the thrill of violating copyright and licensing law as with sexual need. Será esta afronta ao “copyright” que torna as Tijuanas divertidas ainda hoje, claro que a afronta não era feita de forma artística (como os seus contemporâneos Dada) ou politizada (como mais tarde com a cultura Punk) na realidade era apenas exploratória e comercial, quanto mais famosa a personagem abordada mais venderia. Ainda assim coloca em questão porque personagens famosas são obrigatoriamente assexuadas ou proibidas de se mostrarem as suas opções sexuais – uma questão que se coloca apenas no mundo distorcido da Pop e da nossa cultura Peter Pan, claro.

Por fim, é sabido que Kurtzman e a sua “a gangue de idiotas de sempre” de certeza que conheciam estas publicações underground onde foram encontrar inspiração para o seu trabalho nomeadamente no que diz respeito ao (ab)uso de personagens famosas para fazer as paródias da revista Mad, e como uma linha de peças de dominó em queda, com a Mad virá Robert Crumb e o “undeground”, de Crumb os alternativos dos anos 80 e 90, e daí até se poder falar na BD de “autores” e de “artistas”. É especulativo colocar tudo isto em 8 páginas de “pornô”, claro mas é divertido pensar que sim…

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Filed under acervo da bedeteca, bd estrangeira, referência

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