A viagem na Bedeteca

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Cerca de um ano depois aparece na Bedeteca de Lisboa o terceiro volume da Colecção Novela Gráfica: A Viagem de Edmond Baudoin, autor francês que faz parte daquele grupo de autores que já vieram várias vezes a festivais portugueses sem ter obra publicada sem razão! É o caso do espanhol Max (Porto, Amadora, Lisboa e Beja!) e de Baudoin, este presente a primeira vez no Salão Lisboa 2000 e mais recentemente um punhado de vezes nas últimas edições da BD Amadora. Claro que quer um quer o outro foram publicadas BDs’s curtas na Quadrado, no caso de Baudoin no número dois da terceira série (Setembro 2000), mas nunca em livro! E apesar das polémicas que se deram no blogue de Domingos Isabelinho (ler os comentários deste “post”) e mesmo que A Viagem seja um “trabalho menor” de Baudoin, 18 anos depois eis o livro em Portugal, cujo comentário “menos mal…” se alinha perfeitamente ao nosso miserável país.

Diz a sinopse: Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem pela França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, contada pelo traço sensual de Edmond Baudoin, e galardoada em 1997 com o prémio para o Melhor Argumento no Festival de Angoulême.

Nascido em 1942, Baudoin abandona em 1971 o seu emprego como contabilista num hotel de Nice para se dedicar à sua grande paixão: a banda desenhada e o desenho. Tendo publicado nas principais revistas francesas como Circus, Pilote, L’Echo des Savanes e (A Suivre), Baudoin estreou-se em álbum em 1981, com Les Sentiers Cimentés, título publicado pela Futuropolis, editora que irá lançar mais de uma dúzia de livros seus em 10 anos. É um dos grandes representantes do romance gráfico autobiográfico, de que A Viagem é um exemplo poético, que mistura elementos da vida real com outros ficcionais. Autor de uma obra sequencial mais difícil que o normal, mais exigente para com o leitor, que por vezes parece situar-se a meio-caminho entre a BD e a pintura – ou por vezes a caligrafia, o que terá sido um a das razões pelas quais os editores japoneses se interessaram pelo seu trabalho – e que nunca enveredou pela facilidade, Edmond Baudoin viu esse seu percurso ser recompensado em 1992 ao receber o Alph’Art para Melhor Álbum no Festival de Angoulême

“Quando comecei o meu trabalho, percebia muito bem que estava a fazer algo que poderia ser de facto qualificado como difícil, na banda desenhada. Para mim, o prémio de Angoulême que recebi [pelo álbum Couma Aco] virou-me a vida do avesso. Naquele momento, interpretei aquele prémio como se me dissessem “Seguimos-te até aqui, mas podes ir muito mais longe, por isso, tens de te tornar um pouco mais tu próprio”. Então, muito bem. Vou mostrar-vos que posso ir um pouco mais longe”. – Edmond Baudoin 

A Viagem é um livro que ocupa um lugar singular na obra de Edmond Baudoin, por ter sido uma banda desenhada encomendada pela editora japonesa Kodansha, alguns meses depois de Baudoin ter sido premiado em Angoulême, num ano em que o Japão era país convidado do Festival. O pedido era específico, fazer uma espécie de remake de um seu anterior livro, também chamado A Viagem, para a revista Morning, uma revista de manga seinen (para leitores adultos). Por esse motivo, e porque a história era desenhada directamente no papel fornecido pela editora, e por ter sido publicada no sentido de leitura japonês, a sua composição e planeamentos são algo distintos do trabalho normal de Baudoin. (…) 

Premiada em 1997 com o Prémio do Festival de Angoulême para o Melhor Argumento, distinção a que não terá sido estranha o traço mais solto e livre, menos denso, que adoptou para este “quase-manga”, e que criou um ritmo de narração muito próprio, A Viagem tornou-se num dos marcos relevantes da sua obra. Depois de Le Voyage, e ao longo dos anos seguintes, Edmond Baudoin tem vindo a alcançar um estatuto que lhe tem permitido explorar a sua própria maneira de fazer banda-desenhada.  (…) 

“Eu não sou músico, mas utilizo muito a palavra música para expressar a noção de ritmo. Às vezes até falo, por exemplo, da música de Fellini ou da música de Pasolini. Para mim é muito importante que os seres andem na sua música. Para alguns, essa música poderá ser olhar para árvores vivas, pássaros a voar… e porque não? Mas o que quer que seja, cada um deve encontrar a sua música, e estar na sua música. Para mim isso é o essencial.” – Edmond Baudoin

Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal.

4 comentários

Filed under acervo da bedeteca, bd estrangeira

4 responses to “A viagem na Bedeteca

  1. pco69

    Não posso colocar comentário no blog ‘crib sheet’, pelo que (peço desculpa antecipadamente) comento um pouco por aqui:

    O autor deste blog diz “..cujo comentário “menos mal…” se alinha perfeitamente ao nosso miserável país.”

    E o autor do crib sheet diz : “…Qualquer critério de qualidade que tenha em conta este tipo de peso comercial não pode ser tomado a sério. Qualquer critério de qualidade que inclua Eisner e Jodorowsky também não.”

    A sensação com que fico é de dois (mais o do crib sheet) insuportáveis snobs culturais….

    Resumindo, aquilo que me ficou de ambas opiniões (reforço, sobretudo a do crib sheet) é que “se é comercial, é merda!” pardon my french…

    É de lamentar que os editores de BD (seja em Portugal, seja nos USA) tenham de almoçar e jantar e para isso precisarem de dinheiro. Faz lembrar a tal história do burro que, quando finalmente tinha aprendido a deixar de comer, morreu….

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