Fax de Sarajevo

ng_08_kFax de Sarajevo de Joe Kubert (1926-2012) saiu hoje com o jornal Público, no âmbito da segunda Colecção Novela Gráfica, vinte anos depois de ter saído originalmente.

Este romance gráfico começou a tomar forma quando Kubert começou a receber uma série de faxes do seu agente europeu, Ervin Rustemagić, quando este e a sua família ficaram sitiados na cidade de Sarajevo, já cercada pelos Sérvios, em 1992. Este editor e agente literário, além de perder, a casa, a editora e todos os seus bens num bombardeamento (num dos faxes revela que perdeu 12 000 originais / pranchas de BD), viu-se aprisionado durante mais de um ano com a sua família, na cidade de Sarajevo, sob a ameaça constante das bombas e dos snipers sérvios, tendo como único contacto com o exterior, um aparelho de fax. Kubert transformou estes pequenos relatos de Ervin numa história que denuncia os horrores da guerra…

Há quem ache esta BD não muito interessante porque Kubert transformou este drama numa BD com tiques do Sgt. Rock (série de BD de guerra que o próprio produziu), topam-se pelo estilo rígido de narração / diálogos e na figuração com maneiras de “comic-book”. No entanto achamos que não deixa de ser um documento importante por várias razões. A mais óbvia é pela emergência em denunciar os horrores cometidos pelos sérvios às populações bósnias (muçulmanas) no meio de uma completa apatia da ONU ou da UE ao que estava a passar. O documento em si revela o apoio da comunidade internacional (alguns “nossos conhecidos”, como Hermann ou Hugo Pratt) a Ervin e à sua família mostrando que a solidariedade civil ultrapassa os estados e instituições e a BD desmascara (sem querer) a hipocrisia do Capitalismo. Se Erwin consegui escapar ao inferno de Sarajevo foi porque conseguiu provar que poderia vir a ser um elemento precioso para a sociedade eslovena, tornando-se (e a sua família) em 1993 um cidadão esloveno, podendo assim resgatar a sua família do conflito, ao contrário de milhares de outras pessoas “menos importantes”. Realmente se Erwin tinha sido dono de um império editorial na Jugoslávia, ele conseguiu reconstruir o mesmo mais tarde na Eslovénia com a sua empresa SAF – para quem não sabe, muitas das edições da Vitamina BD foram preparadas em acordo as produções SAF.

Ainda sobre os conflitos dos Balcãs há de referir que em 1993, a apatia das pessoas e frustração pelo o que acontecia, levou aos espanhóis Max e Pere Joan a criarem o fanzine Nosotros Somos Los Muertos. O primeiro número (ou número zero ou apenas sem número por ser um monográfico) era um “fanzine-manifesto” mas a experiência de auto-edição, sem espartilhos profissionais, levou a estes dois autores a continuarem com o título para uma revista que permitiu uma renovação da BD espanhola, completamente estagnada princípios dos 90. Alguns exemplares deste fanzine chegaram a circular no Salão do Porto (de 1993) e a BD chegou a ser publicada no Quadrado #1 (2ª série) em Agosto de 1995… Nesse mesmo ano, o belga Hermann faz sair Sarajevo-Tango que apesar da boa vontade do autor em chamar a atenção ao conflito militar e de ridicularizar os “senhores do mundo” trata-se de uma obra demasiada comprometida com a indústria acéfala da BD franco-belga (história de acção num álbum típico a cores) que infelizmente perde a sua validade artística. Felizmente a Levoir, editora desta Colecção Novela Gráfica, preferiu lançar o Fax de Sarajevo embora o esforço deveria ser para algum dos vários livros do maltês Joe Sacco sobre este conflito, especialmente para Safe area : Gorazde : the war un eastern Bosnia 1992-95 (que esteve exposto no Salão Lisboa 2003), uma investigação jornalística e por isso mesmo um relato mais exacto e realista do que se passou. É um livro que exige alguma força de espírito para ler dadas as atrocidades exibidas, muito mais pesadas do que qualquer obra aqui referida. Outro autor que também contribuiu no Salão Lisboa de 2003 foi o sérvio Aleksandar Zograf, que mostrou o “outro lado da barricada”, sob o regime desse porco humano chamado Slobodan Milošević, em Regards from Serbia – este título então duvidamos que alguma vez a Levoir tenha a coragem de o publicar! Por fim e voltando ao Quadrado – #6, 3ª série, Maio 2004 – há ainda o Cão Capacho Bósnio, dos suecos Max Andersson e Lars Sjunnesson, que é uma viagem surrealista nos Balcãs nos finais dos anos 90, acompanhados pelo “cadáver do Presidente Tito“, que também cá esteve em 2005 dentro de um frigorífico.

Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal.

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