Quinta da Liberdade

16a4260625cd4e5bb1dc2bd216c944c4E na Quinta-Feira das Novidades na Bedeteca de Lisboa chegou um livro que dá no que pensar: The Life and Times of Martha Washington in the Twenty-First Century de Frank Miller (a) e Dave Gibbons (d) que compila toda a série de BD que começou com o título Give Me Liberty e seguiu com o nome da personagem principal, Martha Washington.

O DJ Balli que visitou Lisboa o ano passado, numa conversa com os seus amigos, que escutamos à socapa (bem sabemos, foi xunga da nossa parte!) dizia que há “squats” de fascistas em Itália que usam o mesmo perfil e modus operandi dos anarquistas atraindo os jovens para os seus programas pensando estes que estão no mundo do pensamento de esquerda mas na realidade estarão a receber ideais nacionalistas e racistas de forma camuflada. Isto lembra-nos que esta série de BD tem toda uma ambiguidade ideológica, que para muitos poderá parecer um hino anarquista mas no fundo mostra-se o neoliberal, infelizmente. Merecia uma advertência de “leitura tóxica” tal como acontece com alguns países civilizados em relação ao Tintin no Congo.

A série até começa bem, a personagem principal é Martha Washington que é uma jovem negra vinda do gueto de Cabrini-green Homes. Em 1990, Miller devia ser um gajo simpático porque não é normal nos “comic-books” aparecerem personagens femininas (sem serem metidas em frigoríficos) e de origens africanas contrapondo não só a homónima esclavagista primeira dama dos EUA como também ao tradicional herói da BD comercial americana que são sempre gajos musculados caucasianos.

Ela torna-se numa verdadeira heroína fazendo uma carreira de soldado – para sair do gueto – e uma lutadora da ecologia, estranha combinação, que faz de Miller um copião – o que nada temos contra, pelo contrário – até nas confusões do escritor de Ficção Científica Robert A. Henlein (1907-1988) que ora enaltecia o valor da vida militar como a seguir era a favor da liberdade sexual, dois conceitos contraditórios pelo menos nos exércitos modernos, Ó Miller sabias que em Esparta os soldados eram amantes entre eles, tipo para fortalecer os laços dos militares?

Lá vai torta, esta saga de que vale escrever em 2017 porque os EUA da BD lembra os EUA de hoje: um Presidente corrupto e porcalhão, guerras com os índios nativos por causa de reservas de petróleo, os Estados a separarem-se (alô, alô California!?), a economia corporativista a rebelar-se contra o Estado, calamidades ecológicas, mentiras mediáticas, obsessão clínica pela higiene e pela imortalidade, etc… Isto no primeiro arco da série, escrito em 1990 e prevendo a desgraça ao longo de 1995 até 2012 – acaba nesse ano com a eleição de um Presidente num corpo de robô! A futurologia falhou, Obama foi reeleito em 2012 mas com o Trump, imediatamente a realidade ultrapassou a ficção!

Até 2007 foram editadas BDs desta série, a última é Marha Washington Dies com a personagem a falecer em 2095. Ao longo de 17 anos desta série vai haver um crescendo nas aventuras ao ponto de passar da Ficção Científica distópica – um futuro cheio de problemas a roçar o Apocalipse como o nosso actual – para ir a uma Utopia à americana em que até já mete E.T.’s e vai para pela exploração do Espaço.

“À americana” não é por meter E.T.s e naves espaciais, é porque parte para liberalismos e paradoxos, especialmente no episódio Martha Washington Goes To War em que Miller assume como inspiração Atlas Shrugged da americana nascida russa Ayn Rand (1905-1982) considerada por uns como uma filosofa e por outras uma mera escritora popular – os russos sempre a baralhar! Prostituta russa ou palhacita nietzschiana, Rand é alguém que tanto inspira liberais como conservadores, em que para chegar à sua Utopia temos ter a percepção que muitas pessoas irão morrer no processo. Tal como os EUA mataram várias civilizações para criarem a sua, também nesta série há massacres e sacrifícios a rodos! Porque é apenas um “comic-book” para divertir ou porque tem de ser mesmo assim se fosse na vida real? Quem dita tal coisa, os acólitos de Rand?

Os paradoxos não param, se parece que Miller inspira sempre um discurso que tende prá Utopia libertária ao longo da evolução da série, no episódio final, não resiste em colocar Martha a morrer com um crucifixo e um ambiente cristão à sua volta – páginas 542/545 deste volume. Tanto critica a religião como a convoca. Dá um prego no Cristo como outro na ferradura… O mais irónico e divertido é que numa BD de 1994 em que mete um muçulmano a fazer parte dos “terroristas bons” lutadores contra o sistema. Lindo! Alguém que luta pela Liberdade na América numa BD é um “terrorista bom” mas quando se destrói as Torres Gémeas na realidade já são maus. O discurso de Miller é uma treta portanto e só piorou com a sua islamofobia tosca pós-11 Setembro 2001. E porque raios as suas personagens nesta série lutam contra as “Macdonalds-destruidoras-da-Amazónia” para depois mostrá-las desejosas por um hamburger gorduroso? Não devia saber, entre tantas coisas, que já existiam veggie burgers nos anos 80? Se calhar um vegetariano segundo a mente confusa de Miller não passa de um nazi – ei! O Hitler era vegetariano, certo?

Este tipo de incongruências são o nó górdio dos americanos, em que o seu espírito da pradaria infinita invoca a Liberdade sempre de forma individualista. Miller e os norte-americanos nunca vão perceber que as (r)evoluções fazem-se com uma consciência colectiva e não com heróis armados com metralhadoras. Ou que nenhum homem é uma ilha. Martha Washington, apesar de mulher e negra, torna-se num sonho de teenager borbulhento que lê “comics”. Por isso é que Miller será sempre um mero escritor de “comic-books” em todo o mau sentido que a expressão possa ter. Um puro e duro “bedófilo”, aliás, bastante amado por essa comunidade que não percebe a profunda mediocridade de Sin City, uma das piores BDs de sempre…

Os americanos irão sempre impressionarem-nos com invenções mirabolantes cheias de energia, do Jazz aos Jane’s Addiction, dos super-heróis ao Daniel Clowes, de Edgar Allan Poe ao Gore Vidal. O século XX foi americano sem dúvida, o XXI, com ou sem a pobre da Martha, é que não será de certeza americano… God, Bless Us All!

PS – Curiosamente em Portugal, Pedro Nogueira fez uma BD sobre um filme baseado num livro de Rand, intitulado The Fountainhead (de 1946) ou Vontade Indómita segundo a tradução portuguesa do filme…

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Filed under acervo da bedeteca, bd estrangeira

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