Espião ao Quadrado

transferir

A Turbina Associação Cultural sob o selo Mundo Fantasma lançou o álbum O Espião Acácio de Relvas, uma BD considerada mítica e publicada há quarenta anos atrás na revista Tintin (edição portuguesa). A edição é luxuosa q.b., um álbum com capa dura, com a pompa e circunstância de quando um “clássico” é reeditado, ainda mais quando o autor foi importante e tenha desaparecido há poucos meses. Diz a sinopse: Acácio de Mello o inconfundível espião português saído da fértil imaginação e da talentosa pluma de Fernando Relvas encontra o seu espaço num livro que recolhe a obra integral das suas aventuras.

O problema é que o trabalho de Relvas é bom a partir dos anos 80 para cima. Quem tiver dúvidas facilmente poderá comprovar porque as suas obras, publicadas originalmente em periódicos, felizmente foram recuperadas em livro ou em álbum a partir de 1997 com Karlos Starkiller, LX123 / Cevadilha Speed, Sangue Violeta e Rosa-Delta-Sem-Saída / Slow Motion. Deve-se acrescentar que o facto de ter havido estas reedições, de BDs perdidas em periódicos (ou fanzines) é um acto de salutar em Portugal. O que esses editores fizeram (e ainda foram muitos!) é considerado uma anomalia no mercado livreiro, que ignora a BD a todos os níveis. A Turbina ter voltado à carga da reedição de trabalhos de Relvas é de uma coragem simbólica mas… Nos anos 70, Relvas era um chavalo.

Já tinha talento, traço e estilo. Já se adivinhava que traria humanidade à BD portuguesa mas ainda era “verde” e à procura da sua voz. Sabemos hoje que ele era irrequieto e várias vezes mudou de estilo gráfico na sua carreira e topamos no Espião Acácio indícios dessa voz a surgir. No entanto, a sua produção de 1978, e sobretudo quarenta anos depois, é vulgar e sem génio. Acreditamos que para os putos da altura, ao lerem o “Espião” na Tintin, lhes tenha “batido” imenso.

O público da Tintin não era o da Visão. A Tintin era uma revista betinha para “todo o público”, que é uma forma politicamente correcta de dizer para crianças e jovens. Um miúdo que leu as BDs “doidinhas” do “Espião”, cheias de non-sense e alguma cultura urbana – a primeira vez que aparece “um punk” numa BD portuguesa deve-se a Relvas e a esta série em 1979 (no álbum, na pág. 98) -, terá guardado uma recordação carinhosa no seu coração. Só que, como um crítico da nossa praça recentemente “postou” em relação às memórias bedéfilas da infância: put your crappy childish comics where they belong: namely, up your ass! Sim, o Espião Acácio visto em 2018 é “crappy” e também “childish” por muito que doa aos seus editores que fizeram um excelente trabalho, aos fãs e leitores de Relvas e até às instituições que o meteram numa colecção de selos em 2004.

Temos pena ter de dizer desta forma tão crua. Estamos conscientes que não estamos a desrespeitar o autor porque sabemos que ele estava-se nas tintas para isto tudo e até uma vez disse-nos que estas questões da legitimação do seu trabalho ficariam resolvidas com o passagem do tempo. Uma consideração lúcida de Relvas, pois é o tempo que julga tudo e todos do que se faz neste planeta. O que queremos denunciar é que este livro é um produto de Nostalgia. E Nostalgia significa Comércio apenas.

É certo que esta edição foi feita com grande amor pelo autor e pela sua obra. Não vemos nesta reedição um gesto oportunista de lucro fácil. Só alguma falta de gosto e de selecção, típica na cena da BD. A Nostalgia intercepta-se com a noção de Popularidade, que por sua vez significa “infantil” – ou o chavão “dos 7 aos 77”, que é uma falácia intelectual.

A edição é completada por uma detalhada bibliografia (ó amigo, diga lá “quadriculografia”, não tenha medo…) e deveria ser aqui que os seus editores deveriam ter-se focado e achado a resposta certa para honrar a Obra de Relvas. Ele fez as BDs mais interessantes, adultas, urbanas, modernas e complexas no Se7e e não na revista dos “teenagers” dos 70. Talvez não o tenham feito porque QUERIAM MESMO era editar em álbum a sua recordação de infância / puberdade.

Ou será porque a maioria dessas BDs já foram reeditadas em Karlos Starkiller e Sangue Violeta. Será? Eram as melhores? Ou as mais populares? Ainda assim, Relvas deixou muitas BDs perdidas para (re)ver, (re)ler e pensar na sua (re)publicação. Pela lógica do “Espião” então “vale tudo a pena”. Só pode significar que toda a obra do Relvas terá de ser reeditada! Que a Turbina não pare de girar álbuns do Relvas!

Se isso acontecer, O Espião Acácio será apenas um detalhe na bibliografia, o trabalho de início de carreira numa colecção de “Obras completas”, um álbum salvaguardado por fãs devotos mas que deixaria espaço para que as suas outras BDs, as mais maduras, fossem valorizadas por pessoas “normais” – isto é, não-bedófilos e não-nostálgicos. Se isso não acontecer, então este álbum terá uma importância desmesurada… Como costuma acontecer sempre na História da BD.

PS – Entretanto chegou um belo exemplar do álbum à Bedeteca de Lisboa, cortesia dos editores.

PPS – Olhando para as cores deste álbum apercebemos que são as mesmas do L123 seguido de Cevadinha Speed, cuja edição também envolveu Júlio Moreira. Se não fosse a diferença dos tamanho e das capas (mole o L123, dura o “Espião”) até dá a sensação de estamos perante de uma colecção de “Obras Completas de Relvas”. Uma fantasia nossa…

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under acervo da bedeteca, bd portuguesa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s