Quinta do Spirou

5b2ca2855bf746c09b70f1f63e8b1eebJuramos que tentamos ser abertas às propostas da colecção Novela Gráfica mas só ficamos nauseadas. Sobre O Fantasma de Gaudí sem comentários, ou melhor, é possível comentar: é um Spirou com entranhas, simplesmente ridículo. O Gente de Dublin também é do tipo Spirou encavalitado com aquela BD chata portuguesa pedagógica dos anos 80, só o conseguimos ler porque trata-se da biografia de James Joyce! Do que chegou nesta Quinta-Feira das Novidades na Bedeteca de Lisboa sobra Uma Irmã de Bastien Vivès que será assim tão melhor que as “espanholadas”?

Sobretudo é um mal-entendido para quem acha que percebe de BD, a começar pela própria tradutora e prefaciadora, Margarida Mesquita, que acha o máximo que Vivès não se consiga colocar num rótulo, do tipo “autor comercial” ou “autor alternativo”. Esquece-se que estes rótulos só fizeram sentido até aos anos 90 quando literalmente autores como Art Spiegelman (um autor de bestsellers é comercial ou é alternativo?) ou David B lutaram por uma Banda Desenhada que se adequasse ao formato livro e ao mercado livreiro (longe do nojo do mercado da “BD”) com obras que tivessem conteúdo sério e adulto, ou seja, que eram realmente uma “alternativa” à produção de BD industrial virada para crianças e jovens (super-heróis, patos semi-nus, narizes gordos) e adultos infantilóides (Frank Miller ou Manara). Actualmente, essa indústria continua a publicar esse mesmo lixo de sempre mas também literatura “light”: romances gráficos que parecem ter assuntos “sérios e adultos” mas que no entanto são apenas uma imitação sem conteúdo ou sentimentos dos pioneiros “alternativos”. Actualmente David B ou as obras menores do final de carreira de Harvey Pekar (infelizmente Pekar escreveu muita porcaria em uníssono com a explosão do mercado do romance gráfico) ou dezenas de autores franceses imitadores da L’Association (ou ainda centenas de autores espanhóis que imitam os imitadores franceses!) estão num mesmo plano horizontal comercial nas livrarias com milhares de obras em competição, ficando os únicos critérios de distinção as capacidades de distribuição e “marketing” das editoras, já que crítica de BD sempre foi uma enorme piada. Pensar ainda nas balizas “comercial versus alternativo” é puro anacronismo, ou então é mais perverso, é uma tentativa de vender uma ideia exótica sobre uma obra medíocre.

Vivès sabe usar muito bem os tempos narrativos para contar histórias vulgares ao ponto delas parecerem espectaculares ou mágicas, ou  “sensíveis” – essa “marca registada” dos autores “alternativos”. Só que ele é profundamente manipulador e preguiçoso, como qualquer outro “autor comercial”. Imita descaradamente a dupla Ruppert & Mulot (os três juntos fizeram entretanto livros em conjunto, não sabemos porquê) no seu estilo gráfico e trejeitos narrativos (a lembrar a animação), eliminando a informação desnecessária, como por exemplo, olhos e expressões das caras dos humanos, excepto quando Vivès precisa deles (olhos e expressões) para colocar um inocente efebo esbugalhado com as mamas da sua parceira de quarto – dois miúdos de sexos opostos partilham um quarto num Verão nesta BD sobre a descoberta da sexualidade. O que relata esta BD poderia ser a descoberta sexual de qualquer pessoa do planeta – menos do Chester Brown, obviamente – por mais atribulada (e original) que possa parecer ao leitor, no plano do argumento. Tudo é aparência porque tudo é superficialidade artística. É fácil dar as “piscadelas de olho” ao leitor da forma acima descrita para ele perceber o que as personagens sentem – da mesma forma como na TV ou Cinema, os “maus” tem sempre um tempo de câmara para que o telespectador possa suspeitar daquela figura em especial.

Mais fácil ainda é parecer audaz com cenas de sexo softcore entre menores. Cenas tão fugazes e leves como em toda a produção franco-belga, onde seja qual for o motivo e tema do álbum há sempre uma cena picante. É sabido que nos álbuns de BD franco-belga há sempre tetas e pinocada, seja numa cruzada contra os cães infiéis ou numa chacina de peles vermelhas. É o French touch! Curiosamente, até hoje só lemos uma obra de Vivès que fosse sincera e… era pornográfica. Apesar da sua “funcionalidade” de molhar a libido havia humor e gozo de costumes muito mais forte do que estas “novelas gráficas” publicadas em Portugal. Por alguma razão barata e compreensível, a Levoir prefere editar estes sucedâneos invés das obras originais e válidas, afinal, estes álbuns custam apenas 10 euros no seu lançamento com o jornal Público. Não se pode ter as “Grandes Obras da BD” por este preço, sejamos realistas. Ou é apenas mau-gosto dos editores?

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Filed under acervo da bedeteca, bd estrangeira, mercado

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