Monthly Archives: Agosto 2020

Um Horizonte!!

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Até 5 de Setembro (Sábado!) está patente na  Tinta nos Nervos uma exposição que mostra um conjunto de desenhos de Edmond Baudoin (Nice, 1942), grande mestre da banda desenhada contemporânea francesa e precursor da emergência da autobiografia nesta disciplina no final dos anos 1980.

La ligne, un horizon; le corps, une riviére (“A linha, um horizonte; o corpo, um rio») apresenta trabalhos originais, realizados a tinta-da-China sobre papel, provenientes de três projectos recentes: Le Corps Collectif, um longo ensaio-caderno de observação nascido do convívio com a companhia de dança contemporânea Le Corps Collectif, fundada em 2009 pela coreógrafa Nadia Vadori Gauthier; Humains, la Roya est un fleuve, fruto da colaboração com o artista Jean-Marc Troub’s, iniciada em 2011, de visitas a zonas de crise humanitária, auscultando migrantes económicos e refugiados em busca de uma vida melhor, perguntando-lhes os nomes e os sonhos; e La Traverse, co-assinado por Mariette Nodet, esquiadora de competição, alpinista e trekker, em torno de uma viagem de luto aos Himalaias.

Estes três livros, como a demais obra do autor, mostram encontros com o outro, e procura nesses «outros» o que eles reflectem de nós mesmos e, como esse encontro, nos tornam a todos mais humanos.

Baudoin é, incontestavelmente, um dos grandes mestres da banda desenhada contemporânea francesa, sendo mesmo uma força precursora da emergência da autobiografia nesta disciplina no final dos anos 1980, assim como da “literary turn” que presidiria a uma nova circulação social dos “romances gráficos”, não apenas em França, como noutros países. Ele é, por exemplo, um dos pilares recuperados pelos autores-fundadores da editora L’Association, que assim criavam a sua própria tradição, reforçada pela nova geração.

O artista, todavia, não abdica de forma alguma da qualidade pictural e a urgência gestual dos seus desenhos, bem pelo contrário essas características têm-se tornado mais apuradas na sua obra, a qual se traduz em mais de oito dezenas de livros. É difícil reduzi-lo a uma mão-cheia de temas, mas existem preocupações recorrentes e revisitações de certos assuntos que não apenas agregam cada título diferente – mesmo que sejam adaptações de obras de literatura, cadernos de viagem, obras de ficção, mesmo de género, colaborações, ou ensaios –, como a tornam uma “obra contínua”, passível de ser relida de tal maneira que os elementos se movem, tão vivos como a vida vivida.

(…) O autor teve apenas publicado no nosso país uma história curta, na revista Quadrado (n.º 2 da 3.ª série, Setembro de 2000; Bedeteca de Lisboa), e um livro, A Viagem, pela Levoir, em 2015. Esteve presente em Portugal em duas ocasiões: a primeira, no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, na exposição central, colectiva, de Autobiografia e Banda Desenhada, comissariada por Pedro Moura (membro da Tinta nos Nervos) em 2012; e no XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, em 2016, no qual o autor marcou presença e teve direito a uma exposição.

La ligne, un horizon; le corps, une rivière é a oportunidade para um largo público ter acesso ao seu trabalho mais recente, reunido numa grande mostra da beleza poética, mestria no desenho e invenção gráfica deste fundamental mestre francês. Estes três livros, como a demais obra do autor, mostram, de modos distintos, encontros com o outro, com os outros, e procura nesses outros o que eles reflectem de nós mesmos e como nesse encontro nos tornam a todos mais humanos. Paisagens urbanas e rurais, montanhosas e pelágicas, ondas criadas por corpos em fuga ou na dança, corpos cansados da viagem, e outros cansados de dançar, rostos interrogativos e rostos conquistadores, todos unindo-se no contínuo rio provocado pelo traço negro de Edmond Baudoin, tudo desejando um voo admirável e eterno e, acima de tudo, humano.

Quem quiser “visitar” a estadia de Baudoin pela Tinta eis vídeos aqui.

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O Atkins, claro!

Este livro deveria discutir qual é o melhor baterista Rock de sempre nestas cinco opções: Dave Lombardo, Mick Harris, Martin Atkins, Dave Grohl ou Zack Hill. Com referências no livro a bateristas completamente antiquadas que pensar sobre o seu tema de “ficção científica” sobre a Alma na máquina? Banhoca! Agora!

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Fechou!

Não sabemos qual a melhor altura para ouvir este tipo de música mas a verdade é que saiu recentemente e devemos divulgar porque ambos os músicos fazem BD e ilustração – o italiano Nicola Vinciguerra (Taeter) e o português André Coelho (Sektor 304) – e porque todo o “artwork” deste CD parece uma BD “cadáver-esquisito”. A edição é da Nekrogoat Heresy e Narcolepsia, que conclui assim a bela carreira de Sektor 304 com um pénis numa capa.

Entretanto Coelho avançou para novo projecto, Metadevice que já vai no terceiro álbum, Ubiquitarchia, a lançar pela norte-americana Malignant:

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Brochura da IBM!

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Chegou à Bedeteca de Lisboa um livro cuja capa parece daqueles manuais de computadores dos anos 80! Mas All Watched Over by Machines of Loving Grace não é um livro sobre programação! Lançado pela Chili Com Carne, reúne os talentos de Amorim Abiassi, Ana Maçã, André Pereira, Cátia Serrão, Cláudia Salgueiro, Dois Vês, Félix Rodrigues, João Carola e Vasco Ruivo e é a obra vendedora do concurso interno Toma lá 500 paus e faz uma BD! de 2019

Dizem: À data de publicação deste livro, não se ouvem nas florestas os estalidos de discos rígidos a acompanhar o roçar dos ramos das árvores; contudo, havendo sinal, é possível escutar o som de um Like a pingar na nossa mais recente foto de perfil.

O poema de Richard Brautigan que serve de mote a este livro foi publicado há mais de 50 anos; a sua visão de uma arcádia digitalizada, onde mamíferos de toda a espécie convivem sob o olhar zeloso e benevolente de máquinas bafejadas pela santidade, não se concretizou. Em 2019, a tecnoesfera continua a ter o Homem no seu centro e a Natureza (seja lá o que isso for) nas margens do seu perímetro, encarada essencialmente como um recurso que em breve se esgotará. Os robots caminham sozinhos pelos bosques e os mamíferos caem por terra onde dantes havia água: todos observados por máquinas, mas não de amor e graça.

O livro que têm nas mãos documenta as dinâmicas articuladas no solipsismo desse ciberespaço que criámos só para nós: das relações laborais à saudade, da saúde à identidade, nele se retrata o modo como o manto do digital cobre todos os aspectos do nossa dia-a-dia e medeia as interacções que por cá vamos estabelecendo. É debaixo desse cobertor, com a cara tenuamente iluminada pelo ecrã, que observamos o robot caminhar sozinho pelo bosque e choramos o paraíso perdido do poema de Brautigan.

Afinal de contas, à data de publicação deste livro, já mal se ouvem nas florestas os estalidos dos insectos, que vão caindo por terra onde dantes havia água; contudo, havendo sinal, é possível escutar mais um Like a pingar na nossa foto de perfil. 

Ping. Alguém está a ver.👍

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Seca de Verão!

A Gradiva é das editoras generalistas cuja relação com a BD é a mais bipolar delas todas, ora edita o mestre Will Eisner ou o essencial Larry Gonick como a seguir edita biografias de ditadores em formato franco-belga genérico. Este O Guardião nem é carne nem é peixe apesar da temática “polémica” de tratar sobre um grupo secreto ligado ao Vaticano (…) uma célula especial dos serviços secretos da Santa Sé. A sua nova missão será proteger os cardeais que participam no Fórum económico Mundial de Davos. Credo! Nem uma pequena referência à pedofilia católica, este álbum não merece sequer a atenção do Index Librorum Prohibitorum.

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Marcatti

Um exemplar de Gênese na Bedeteca de Lisboa veio mudar toda a ideia que tínhamos do autor brasileiro Marcatti. Sabíamos que fazia BD num estilo cristalizado do “underground comix” e conhecíamos a sua adaptação d’A Relíquia – já que os editores portugueses só editam BDs que tenham relação com obras literárias, o que estão à espera para publicar em Portugal esta obra-prima de Eça de Queiroz!? Ou haverá medo de heresia?

Seja como for, em Gênese o autor explica como faz as suas BDs, ou melhor, como as imprime, aliás, como as imprime por ele próprio. Sim, Marcatti tem uma impressora “offset” Multilith 1250 e por isso como podem imaginar só assim é que se pode considerar um autor realmente INDEPENDENTE! Incrível! Respect!

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Férias com Filhos e Cavaleiros

Jodorowsky velho pilantra, temos de te aturar em Portugal que não é coisa pouca. Felizmente estamos a apanhar sol sem bifes bêbados à nossa volta e até conseguimos ler as tretas esotéricas que adoras despejar nos teus álbuns franco-belgas.

Sobre os Cavaleiros de Heliopólis: O destino de Luís XVII, que pereceu aos 10 anos nas masmorras da prisão do Templo, é, na mesma medida que o Homem da Máscara de Ferro, um dos maiores mitos da História de França. Um destino romanesco que o Jodorowski reescreve com brilho numa grandiosa fábula iniciática e esotérica. O traço virtuoso de Jérémy dá a Os Cavaleiros de Heliópolis a força de um fresco épico, em que se misturam os segredos da alquimia e os arcanos da História. E sobre Os Filhos de El Topo: A continuação de um filme de culto em banda desenhada! No árido Oeste, El Topo foi um bandido que, ao abrir as portas do seu coração, se tornou um santo, chegando a realizar grandes milagres. Teve dois filhos, de duas mulheres diferentes. Figura funesta de couro negro a deambular pelo deserto, Caim, o maldito, jurou matar o pai, a quem nunca perdoou. Incapaz de levar a cabo a sua vingança, decide então voltar a atenção para o seu meio-irmão Abel. E neste oeste selvagem, tingido de misticismo, aqueles que cruzarão o seu caminho serão as vítimas colaterais… Foi no início dos anos 1970, à meia-noite em ponto, durante um festival de cinema, que o casal de vedetas, John Lennon e Yoko Ono, projecta El Topo (…) Imediatamente celebrado pela crítica e pelas maiores estrelas de rock da época, o filme dá origem à corrente Midnight Movies e gera um verdadeiro culto entre os cinéfilos do mundo inteiro. Ainda hoje ele não perdeu nada da sua grandeza e do seu estatuto de obra mítica. Quase meio século depois, Jodorowski decide contar a continuação… em BD. Graças ao traço virtuoso de José Ladrönn, dá-nos um western alegórico e surrealista, onde, (…) o género está ao serviço de considerações filosóficas e espirituais mais profundas. Cóf cóf cóf… Jodo, prometes que esta BD tem o formato de três tiras por página para dar a ilusão de Cinema mas é um acto falhado, se tivesses mesmo para te chateares, batias o pé para se fazer noutro formato! Adoras dar tangas, né?

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