Depois da Peste e da Guerra… a Fome!

Está patente até 22 de Dezembro a exposição A Fome e outras frieiras de José Feitor a propósito do lançamento do opúsculo A História da Fome, no Espaço Corrente, Lisboa. São cerca de 30 serigrafias e desenhos criados ao longo dos dois anos de gestação da edição que agora se apresenta. Obra filofágica por necessidade, a História da Fome sofre da ambição de querer explicar a essência de uma das mais famigeradas facetas da natureza humana: a sua infindável inclinação para tudo deglutir.

Transformada em metáfora e signo, a ração impôs-se nas relações sociais e nos negócios de Estado. O pecúlio alimentar – chamemos assim a todo a mercadoria consumível – é exibido como totem pelos chefes, sacerdotes e outros figurões. A canalha segue-lhes o exemplo e ruma em magotes aos restaurantes pronto-a-comer, tendo elevado o bufete à condição de templo e espécie de Cocanha. Sentir fome, na acepção de ter o corpo à beira da falência por falta de alimento, tornou-se inconcebível por se encontrar fora do âmbito da experiência quotidiana. O receio da míngua de alimentos não tem correlação objectiva com a sua escassez ou abundância. Trata-se de uma mania universal. A gana não cessa pois é impossível saciá-la. (…) Estar gordo, ou melhor, ser gordo, é a mais inflamada manifestação de plenitude vital. É produto do culto da abundância e dessa inclinação milenar para venerar o que queremos comer, desde refrigerantes e enchidos a automóveis e sistemas de ar condicionado.

José Feitor (1972) é o professor, ilustrador, editor e impressor responsável desde 2006 por esse espúrio projecto editorial chamado Imprensa Canalha. É também mordomo no Estúdio Trovoada. Desde há muito ligado à agitação fanzinográfica, foi editor do zine Zundap e esteve envolvido na criação das feiras Laica e Raia e no nascimento da Oficina do Cego, entre muitas outras iniciativas de pendor anti-estático. Com trabalho publicado por aí, vai editando e expondo, como fez em 2019, na Tinta nos Nervos, com A Mercadoria é Medonha, vai vender que nem ginjas, a propósito da publicação do livro Encantados e Arruinados ante os Restos do Banquete.

Horários: de 4ª a sábado, entre as 17h e as 20h; encerramento no dia 22, entre as 18h e as 22h.

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