Category Archives: bd portuguesa

Esperamos não estar a deitar os foguetes antes da festa…

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Richard Câmara

Foram abertas as Bolsas de Criação Literária prometidas em Março deste ano! Eis o regulamento: livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/BOLSAS-DE-CRIACAO-LITERARIA.aspx

As bolsas foram criadas em 1996 e a sua atribuição foi interrompida em 2002, e reactivadas este ano (…) O modelo permite, pela primeira vez, a candidatura de autores sem trabalhos editados, podendo vir a apresentar um projecto de escrita com orientações sobre o trabalho a realizar. Outra novidade é a possibilidade de se candidataram projectos nas áreas da banda desenhada, literatura infanto-juvenil e obras de ilustração, enquanto a portaria de 1996 admitia estas modalidades apenas a título “excepcional”.

Até 2002, ano em que este programa foi suspenso, as bolsas eram atribuídas por doze meses e, a partir de agora, podem ter uma duração de apenas seis meses, adaptando-se a cada um dos projectos, o que, em vez de doze bolsas anuais, poderá traduzir-se na concessão de 24 bolsas por ano (…) em 2002, foram apoiados 72 autores, entre os quais Luísa Costa Gomes, Almeida Faria, José Luís Peixoto, Luís Cardoso, Possidónio Cachapa, Al Berto, Fernando Campos, Inês Pedrosa, Adília Lopes e Graça Lobo.

No caso da Banda Desenhada foram atribuídas bolsas a seis trabalhos entre 1998 e 2002, dos quais cinco foram publicados com boa recepção pública e da crítica e três tiveram publicação internacional, a saber:

Mesmo com uma pequena mancha – e não estamos a culpabilizar o autor, as editoras é que foram cegas em não terem publicado o livro de Câmara – perguntamos quantas obras noutras áreas tiveram este mesmo impacto e percentagem de sucesso? Repor estas bolsas era de máxima importância para que a BD portuguesa possa voltar a respirar. Por esta acção podemos dizer que o actual Governo está de parabéns!!!

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Mais famoso que Cristo…

thumbnail_Convite Santo Antonio na BD 9 maio

De 18 de Julho até 27 de Setembro, no Museu de Sto. António estará patente uma exposição dedicada às representações na BD portuguesa do santo popular mais popular do mundo. A Bedeteca de Lisboa apoiou nesta investigação. Uma curiosidade que aqui divulgamos, apesar do nosso ateísmo…

Estatua Santo Antonio (01) novoTexto do catálogo (disponível na Bedeteca): É-nos dito que Sto. António é o santo mais representado, imageticamente, em todo o mundo e sendo verdade eis um santo que se adequa bem à banda desenhada, área artística que tal como ele está em metamorfose contínua, assumindo cambiantes (des)multiplicadas, com interacção entre o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o cristão e o pagão. Essas metamorfoses são perfeitamente perceptíveis visitando o Museu de Sto. António. Logo à entrada, no largo, rebuscando a lógica da Coluna de Trajano – monumento romano de 113 d.c. que é considerado como uma “proto-BD” – encontra-se a estátua de Domingos Soares Branco (1925-2013), inaugurada em 1982, em que vemos uma imagem de Sto António assente sobre base em cobre, profusamente decorada, onde é representada a sua biografia, incluindo os seus vários milagres. Também fazem parte do acervo do Museu alguns impressos italianos e alemães do século XX com o santo ilustrado ao centro rodeado por vinhetas arredondadas relatando sobre os seus milagres. A disposição parece-nos aleatória mas devido à óbvia narração, eis umas “BDs” em estado de graça.

1881Esta congénita interacção entre o erudito e o popular, leva a que este monstrum miraculorum seja o mais representado na BD portuguesa e outras áreas adjacentes, a começar logo pelo “pai” da BD portuguesa Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) que usou e abusou da figura do Santantoninho em cartoons, ilustrações e BDs nas suas diatribes à Monarquia nos periódicos Pontos nos ii e O António Maria. O seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920) segui-lhe a pista da sátira política como se observa na sua crítica ao 7º Centenário de Sto. António em 1895.

Este tipo de registo crítico e publicado em jornais vai-se perder ao longo do século XX, reencontramos no Sempre Fixe em 1935 graças aos “Ecos da Semana” de Carlos Botelho (1899-1982). Este autor irá representá-lo mais vezes na maior parte das vezes sem a devoção religiosa ou institucional que o Antigo Regime obrigava mas, tal como os Bordalos, pela sua capacidade em gerar fenómenos sociais e culturais gigantescos como as marchas populares, às quais Botelho queixa-se em 1947, implorando por uma vacina contra esta maldita canção a “Marcha de Lisboa” ou um novo terramoto na capital! A obra de Botelho sempre foi e sempre será fora de comum na História da BD portuguesa, ou mundial, pelo seu formato cronista balizado entre 1928 e 1950. Também teve poucas sequelas. Uma delas foi a série À Esquina escrita por João Paulo Cotrim (1965) e desenhada por Pedro Burgos (1968) publicada entre 1998 e 1999 no jornal Público. Numa das tiras, é reportado a cidade em festa sob a bênção do santo, bastante assustado com tanta devoção popular que inspirou ao povo.

1952 (1) Bedeteca Cavaleiro AndanteSerá no “reino da pequenada” que haverá a seguir mais registos, sobretudo em ilustração nas revistas infanto-juvenis de BD mais emblemáticas do século XX como Diabrete (passe a ironia) ou Mundo de Aventuras. É visto em artigos dedicados aos Santos Populares e as suas festas, publicados nos números do mês de Junho e intercalados entre BDs de aventuras e humor típicas da época. Daqui, destacamos a capa de Fernando Bento (1910-1996) para o nº 23 do Cavaleiro Andante, de 1952, em que aparecem todos os heróis publicados na altura na revista a festejar os as destas dos três santos populares – S. Pedro, Sto. António e S. João – com ares de subserviência, pouco importando se um deles até é o Rei da Selva Tarzan ou outro é o repórter belga Tintim. Será Bento o primeiro a realizar uma biografia em BD sobre Sto. António no Diabrete nº128, de 1943. Dez anos depois há um curioso “jogo narrativo” na capa de Lusitas, uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina, desenhada por Mitza, pseudónimo de Maria Teresa Andrade Santos (1929), que mimetiza uma página de BD. Na realidade são ilustrações de episódios dos três santos populares, em que a leitora precisava de adivinhar quais as cenas que pertenciam às biografias dos respectivos santos. Em 1950 mais um mimetismo, uma página entre a BD e a ilustração de Vítor Silva (1932), no suplemento Joaninha da Revista Moda e Bordados. Em 1967, Eugénio Silva (1937) faz uma BD da vida do santo para um livro escolar, segue-se Baptista Mendes (1937) para o nº 454 do Mundo de Aventuras de 1982 e mais recentemente José Garcês (1928) consagrou um álbum inteiro intitulado Santo António em Banda Desenhada (Europress; 2016) e que deu o mote a esta exposição.

Sintetizando estas duas “facções”, a iconoclasta das páginas da imprensa e a didáctica das revistas e livros juvenis, está Nuno Saraiva (1969) que no jornal Sol, em 2011, ata o seu reconhecido perfil humorístico a uma pedagogia soft para explicar a tradição secular do “Dê-me uma moedinha para o Santo António”. Como bem se sabe, Saraiva tem sido o principal ilustrador das Festas da Cidade nesta década, não lhe faltando Santantoninhos nas suas dezenas de ilustrações de programas, cartazes e outra efémera.

Para fechar, o universo de Sto. António ainda aparece em algumas vinhetas por aí fora: figura histórica no primeiro volume de História de Portugal (1985) de A. Do Carmo Reis (1942) e Garcês; a sua ”identidade secreta” é comentada, a sua casa, que foi o local do senado da Câmara de Lisboa até 1753 é retratada e uma procissão em seu nome é vista por Beckford nos dois volumes de História de Lisboa (1998-2000) de A.H. de Oliveira Marques (1933-2007) e Filipe Abranches (1965); uma marcha popular no seu dia é vista em “3 de Braço Dado”, série com personagens teriomorfizados de Mitza com desenhos de Bixa (1926), pseudónimo de Maria Antónia Cabral no mesmo número da Lusitas já referido; e a sua estátua emblemática que identifica o bairro de Alvalade, centro de actividade Punk nos anos 80, é mostrada numa BD de Afonso Cortez-Pinto (1978) e é extremamente mal desenhado pela mão esquerda do dextro Marcos Farrajota (1973) num encarte sem título que acompanha o disco Raridades, vol.1 (2009).

Apesar desta lista não ser gigante, não deixa de fazer um corpo curioso de referências da BD portuguesa dos seus primórdios até aos dias de hoje. Existem mais algumas obras de BD portuguesa baseadas em figuras do Catolicismo, não muitas mais, no entanto Sto. António vence em número todas as outras. Lembramo-nos d’A Carga (2008) de Susa Monteiro dedicada a S. Vicente e se referimos aqui a “oposição” é porque em 2014, dois autores ligados à BD, José Eduardo Rocha (1961) e Pedro Moura (1973), produziram a peça Cabaret Vicente exibida no Teatro S. Luiz, que metia estes dois santos num concurso de popularidade. Sto. António perde nesta rivalidade teatralizada. Para nós parece que foi injusto o resultado porque desconfiamos que Sto António nos terrenos da Pop é análogo ao que John Lennon afirmou em 1966 quando disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo…

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Judea na Bedeteca de Lisboa

judea-1Chegou à Bedeteca de Lisboa um grande álbum de BD, se calhar o melhor de 2016! Trata-se de Judea de Diniz Conefrey, editado pela Pianola, uma chancela do colectivo O Homem do Saco.

Adaptação livre para banda desenhada da obra Mocidade de Joseph Conrad (1857-1924), diz a sinopse: Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.

Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal

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Quinta Setenteira

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Nesta Quinta-Feira de “novidades” na Bedeteca de Lisboa chegaram duas peças bem interessantes que em comum têm o facto de serem ambas obras realizadas nos anos 70 em Portugal.

Há também uma ténue ligação ao mundo feminino mas enquanto Querida Heloísa do célebre Sam (1928-93) é uma tira de humor de sátira social (e sexual?) para a revista Mulher – Modas e Bordados (1974/76) e o jornal A Capital (1978) com ar tradicional na forma embora os temas parecem “ousados”;  Mário e Isabel é uma leitura de Isabel Lobinho de textos surreais de Mário-Henrique Leiria (1923-83) cheio de curvas eróticas nas composições de página. O exemplar (que só pode ser consultado) está assinado pela autora.

Lobinho é uma autora de BD cuja carreira é mais conhecida pelos trabalhos publicados nos anos 70 (na revista Visão) e anos 80 (no Correio da Manhã). Este álbum de 1975, editado pela Forja – para uma colecção Erótica mas que só teve este volume – teve uma reedição com má impressão pelos Cadernos Moura BD (#3, em 2002) que infelizmente não faz justiça à edição original – será por isso que nem se quer é referido no Revisão? Ou foi puro esquecimento?

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Bizarras na Bedeteca

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Chegou à Bedeteca de Lisboa, o “comic-book” Bizarras de Sofia Neto que saiu no Festival de BD de Beja. Título integrado na colecção Toupeira – colecção que lembra a Lx Comics. Segunda a Chili Com Carne esta publicação foi a única surpresa no festival e por terem escrito isso provocou reacções de revolta na comunidade “bedófila”, sempre às espera de pancadinhas nas costas… Quem não apanhou este livrinho pode agora consultar e levar para casa e confirmar o que escreveram dele – nós já o confirmámos e concordámos e não é por sermos “sisters”!

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Memória da Crise na Bedeteca de Lisboa

Saiu no FCBD/ MiniZineFEstPt este livro impresso em risografia – sempre com a qualidade DuoDesign! – que reúne várias BDs do espanhol residente no Porto Daniel Casal com argumentos de vários escritores, profissionais e amadores, sob o tema da “Crise” que atingiu os PIGS da Europa…
Cada argumento foi desenhado por Casal, no âmbito de um estágio na Turbina sendo difícil perceber se a coerência destas BDs aqui compiladas se deve ao tema ou se ao estilo de Casal. Apesar dos textos dispararem para vários lados, transformadas em BDs lembram os episódios slice-of-life de Miguelanxo Prado sem o erotismo bacoco de Tangências nem o exagero do Quotidiano Delirante. Algo no meio se possível. Talvez seja pelos diálogos encenados de um mundo que já não se ouve a si mesmo, desumanizando-se de forma mundana e o ritmo narrativo esparso que a comparação surja. Domínio técnico não falta!
Graficamente é muito próximo à Escola de Desenho do Porto, o que poderia soar a uma pretensão qualquer se não existisse mesmo o Clube de Desenho! A influência sente-se a milhas, um bocado de Marco Mendes, um coche de Nuno Sousa e uns pózinhos de Carlos Pinheiro. Mais bem acompanhado não podia estar. Todos os estágios deveriam ser assim, em tempo de crise ou não!

Esta edição da Turbina já se encontra no acervo da Bedeteca de Lisboa para consulta e empréstimo.

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É Fartar Vilanagem!

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Eis que a Bedeteca de Lisboa já tem catalogado este fanzine, editado pela Maria Macaréu, onde encontramos bds humorísticas de Xana e amigos que não poupam críticas aos “reality shows”, Jesus Cristo ou a Feira do Livro de Lisboa. Um título que está bem carregado de todo o espírito do que significa fanzine! Caretas, bazem!

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