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Mais famoso que Cristo…

thumbnail_Convite Santo Antonio na BD 9 maio

De 18 de Julho até 27 de Setembro, no Museu de Sto. António estará patente uma exposição dedicada às representações na BD portuguesa do santo popular mais popular do mundo. A Bedeteca de Lisboa apoiou nesta investigação. Uma curiosidade que aqui divulgamos, apesar do nosso ateísmo…

Estatua Santo Antonio (01) novoTexto do catálogo (disponível na Bedeteca): É-nos dito que Sto. António é o santo mais representado, imageticamente, em todo o mundo e sendo verdade eis um santo que se adequa bem à banda desenhada, área artística que tal como ele está em metamorfose contínua, assumindo cambiantes (des)multiplicadas, com interacção entre o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o cristão e o pagão. Essas metamorfoses são perfeitamente perceptíveis visitando o Museu de Sto. António. Logo à entrada, no largo, rebuscando a lógica da Coluna de Trajano – monumento romano de 113 d.c. que é considerado como uma “proto-BD” – encontra-se a estátua de Domingos Soares Branco (1925-2013), inaugurada em 1982, em que vemos uma imagem de Sto António assente sobre base em cobre, profusamente decorada, onde é representada a sua biografia, incluindo os seus vários milagres. Também fazem parte do acervo do Museu alguns impressos italianos e alemães do século XX com o santo ilustrado ao centro rodeado por vinhetas arredondadas relatando sobre os seus milagres. A disposição parece-nos aleatória mas devido à óbvia narração, eis umas “BDs” em estado de graça.

1881Esta congénita interacção entre o erudito e o popular, leva a que este monstrum miraculorum seja o mais representado na BD portuguesa e outras áreas adjacentes, a começar logo pelo “pai” da BD portuguesa Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) que usou e abusou da figura do Santantoninho em cartoons, ilustrações e BDs nas suas diatribes à Monarquia nos periódicos Pontos nos ii e O António Maria. O seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920) segui-lhe a pista da sátira política como se observa na sua crítica ao 7º Centenário de Sto. António em 1895.

Este tipo de registo crítico e publicado em jornais vai-se perder ao longo do século XX, reencontramos no Sempre Fixe em 1935 graças aos “Ecos da Semana” de Carlos Botelho (1899-1982). Este autor irá representá-lo mais vezes na maior parte das vezes sem a devoção religiosa ou institucional que o Antigo Regime obrigava mas, tal como os Bordalos, pela sua capacidade em gerar fenómenos sociais e culturais gigantescos como as marchas populares, às quais Botelho queixa-se em 1947, implorando por uma vacina contra esta maldita canção a “Marcha de Lisboa” ou um novo terramoto na capital! A obra de Botelho sempre foi e sempre será fora de comum na História da BD portuguesa, ou mundial, pelo seu formato cronista balizado entre 1928 e 1950. Também teve poucas sequelas. Uma delas foi a série À Esquina escrita por João Paulo Cotrim (1965) e desenhada por Pedro Burgos (1968) publicada entre 1998 e 1999 no jornal Público. Numa das tiras, é reportado a cidade em festa sob a bênção do santo, bastante assustado com tanta devoção popular que inspirou ao povo.

1952 (1) Bedeteca Cavaleiro AndanteSerá no “reino da pequenada” que haverá a seguir mais registos, sobretudo em ilustração nas revistas infanto-juvenis de BD mais emblemáticas do século XX como Diabrete (passe a ironia) ou Mundo de Aventuras. É visto em artigos dedicados aos Santos Populares e as suas festas, publicados nos números do mês de Junho e intercalados entre BDs de aventuras e humor típicas da época. Daqui, destacamos a capa de Fernando Bento (1910-1996) para o nº 23 do Cavaleiro Andante, de 1952, em que aparecem todos os heróis publicados na altura na revista a festejar os as destas dos três santos populares – S. Pedro, Sto. António e S. João – com ares de subserviência, pouco importando se um deles até é o Rei da Selva Tarzan ou outro é o repórter belga Tintim. Será Bento o primeiro a realizar uma biografia em BD sobre Sto. António no Diabrete nº128, de 1943. Dez anos depois há um curioso “jogo narrativo” na capa de Lusitas, uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina, desenhada por Mitza, pseudónimo de Maria Teresa Andrade Santos (1929), que mimetiza uma página de BD. Na realidade são ilustrações de episódios dos três santos populares, em que a leitora precisava de adivinhar quais as cenas que pertenciam às biografias dos respectivos santos. Em 1950 mais um mimetismo, uma página entre a BD e a ilustração de Vítor Silva (1932), no suplemento Joaninha da Revista Moda e Bordados. Em 1967, Eugénio Silva (1937) faz uma BD da vida do santo para um livro escolar, segue-se Baptista Mendes (1937) para o nº 454 do Mundo de Aventuras de 1982 e mais recentemente José Garcês (1928) consagrou um álbum inteiro intitulado Santo António em Banda Desenhada (Europress; 2016) e que deu o mote a esta exposição.

Sintetizando estas duas “facções”, a iconoclasta das páginas da imprensa e a didáctica das revistas e livros juvenis, está Nuno Saraiva (1969) que no jornal Sol, em 2011, ata o seu reconhecido perfil humorístico a uma pedagogia soft para explicar a tradição secular do “Dê-me uma moedinha para o Santo António”. Como bem se sabe, Saraiva tem sido o principal ilustrador das Festas da Cidade nesta década, não lhe faltando Santantoninhos nas suas dezenas de ilustrações de programas, cartazes e outra efémera.

Para fechar, o universo de Sto. António ainda aparece em algumas vinhetas por aí fora: figura histórica no primeiro volume de História de Portugal (1985) de A. Do Carmo Reis (1942) e Garcês; a sua ”identidade secreta” é comentada, a sua casa, que foi o local do senado da Câmara de Lisboa até 1753 é retratada e uma procissão em seu nome é vista por Beckford nos dois volumes de História de Lisboa (1998-2000) de A.H. de Oliveira Marques (1933-2007) e Filipe Abranches (1965); uma marcha popular no seu dia é vista em “3 de Braço Dado”, série com personagens teriomorfizados de Mitza com desenhos de Bixa (1926), pseudónimo de Maria Antónia Cabral no mesmo número da Lusitas já referido; e a sua estátua emblemática que identifica o bairro de Alvalade, centro de actividade Punk nos anos 80, é mostrada numa BD de Afonso Cortez-Pinto (1978) e é extremamente mal desenhado pela mão esquerda do dextro Marcos Farrajota (1973) num encarte sem título que acompanha o disco Raridades, vol.1 (2009).

Apesar desta lista não ser gigante, não deixa de fazer um corpo curioso de referências da BD portuguesa dos seus primórdios até aos dias de hoje. Existem mais algumas obras de BD portuguesa baseadas em figuras do Catolicismo, não muitas mais, no entanto Sto. António vence em número todas as outras. Lembramo-nos d’A Carga (2008) de Susa Monteiro dedicada a S. Vicente e se referimos aqui a “oposição” é porque em 2014, dois autores ligados à BD, José Eduardo Rocha (1961) e Pedro Moura (1973), produziram a peça Cabaret Vicente exibida no Teatro S. Luiz, que metia estes dois santos num concurso de popularidade. Sto. António perde nesta rivalidade teatralizada. Para nós parece que foi injusto o resultado porque desconfiamos que Sto António nos terrenos da Pop é análogo ao que John Lennon afirmou em 1966 quando disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo…

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Punk Comix na Bedeteca

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Chegou à Bedeteca de Lisboa dois livros em um, ou seja um split-book, bem à punk! No ano em que se “celebram” os 40 anos do punk em Portugal, a Chili Com Carne, em parceria com a Thisco, edita o (duplo) livro sobre este fenómeno: Corta-e-Cola : Discos e Histórias do Punk em Portugal (1978-1998) de Afonso Cortez Punk Comix : Banda Desenhada e Punk em Portugal de Marcos Farrajota.

Escrito a partir de um levantamento exaustivo de fanzines, discos e demo-tapes, ao longo de 256 páginas, os autores dissecam todo esse material para tentarem perceber como através de uma ética – do-it-yourself – se conseguiu criar uma (falta de) estética caótica e incoerente que hoje se identifica como punk. Através da produção gráfica desse movimento se fixaram inúmeras estórias – até agora por contar – de anarquia e violência; de activismo político, manifestações e boicotes; de pirataria de discos e ocupação de casas; de lutas pelos direitos dos animais; de noites de copos, drogas e concertos…

Corta-e-Cola / Punk Comix é ilustrado com centenas de imagens, desde reproduções de capas de discos a páginas de fanzines, cartazes, vinhetas e páginas de BD, flyers e outro material raramente visto.

E porque punk também é música, o livro vêm acompanhadas por um CD com 12 bandas de punk, rock ou música experimental actuais como Albert Fish, Dr. Frankenstein, The Dirty Coal Train, Presidente Drógado, Putan Club, Estilhaços Cinemáticos… As bandas ofereceram os temas, todos eles inéditos, sobre BD na forma mais abrangente possível, sobre personagens (Corto Maltese), séries (O Filme da Minha Vida), autores (Vilhena, Johnny Ryan) ou livros (V de Vingança, Caminhando Com Samuel). Alguns mais óbvios que outros mas tendo como resultado uma rica mistura de sons que vão desde o recital musicado ao Crust mais barulhento.

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Branea na Bedeteca de Lisabona HOJE

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Apontem na agenda! O romeno Matei Branea (Bucareste; 1977) visita a Bedeteca de Lisboa HOJE, dia 8 de Julho, às 16h.

Artista gráfico que produz cinema de animação, BD e ilustração, percorre vários circuitos, alguns mais underground que outros – sobretudo na BD – e outros comerciais como as suas passagens pela TV e publicidade. O seu trabalho mais conhecido na BD e animação é a personagem Omulan e a imagem de comunicação do festival de cinema Next. O seu trabalho foi publicado em toda a parte, de Tóquio a Nova Iorque, Berlim a Paris, Londres a… Bucareste! E Ljubjana na revista Stripburger que editou a colectânea Greetings from Cartoonia, onde participou também o português Filipe Abranches através da Chili Com Carne. Esteve à frente dos projectos editoriais Hardcomics (uma antologia com 15 volumes publicados até à data) e o jornal Aooleu (6 números).

Branea é professor de animação na UNATC / Escola de cinema de Bucareste. Em 2015 lançou a sua fresca mas picante animação de 15m Omulan!, uma história cósmica sobre o sentido da vida que iremos ver nesse Sábado.

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Fax de Sarajevo

ng_08_kFax de Sarajevo de Joe Kubert (1926-2012) chegou à Bedeteca de Lisboa… Falamos da edição portuguesa lançada no ano passado com o jornal Público, no âmbito da segunda Colecção Novela Gráfica, vinte anos depois de ter saído originalmente. A versão norte-americana, há muito que está nas estantes da Bedeteca!!!

Este romance gráfico começou a tomar forma quando Kubert começou a receber uma série de faxes do seu agente europeu, Ervin Rustemagić, quando este e a sua família ficaram sitiados na cidade de Sarajevo, já cercada pelos Sérvios, em 1992. Este editor e agente literário, além de perder, a casa, a editora e todos os seus bens num bombardeamento (num dos faxes revela que perdeu 12 000 originais / pranchas de BD), viu-se aprisionado durante mais de um ano com a sua família, na cidade de Sarajevo, sob a ameaça constante das bombas e dos snipers sérvios, tendo como único contacto com o exterior, um aparelho de fax. Kubert transformou estes pequenos relatos de Ervin numa história que denuncia os horrores da guerra…

Há quem ache esta BD não muito interessante porque Kubert transformou este drama numa BD com tiques do Sgt. Rock (série de BD de guerra que o próprio produziu), topam-se pelo estilo rígido de narração / diálogos e na figuração com maneiras de “comic-book”. No entanto achamos que não deixa de ser um documento importante por várias razões. A mais óbvia é pela emergência em denunciar os horrores cometidos pelos sérvios às populações bósnias (muçulmanas) no meio de uma completa apatia da ONU ou da UE ao que estava a passar. O documento em si revela o apoio da comunidade internacional (alguns “nossos conhecidos”, como Hermann ou Hugo Pratt) a Ervin e à sua família mostrando que a solidariedade civil ultrapassa os estados e instituições e a BD desmascara (sem querer) a hipocrisia do Capitalismo. Se Erwin consegui escapar ao inferno de Sarajevo foi porque conseguiu provar que poderia vir a ser um elemento precioso para a sociedade eslovena, tornando-se (e a sua família) em 1993 um cidadão esloveno, podendo assim resgatar a sua família do conflito, ao contrário de milhares de outras pessoas “menos importantes”. Realmente se Erwin tinha sido dono de um império editorial na Jugoslávia, ele conseguiu reconstruir o mesmo mais tarde na Eslovénia com a sua empresa SAF – para quem não sabe, muitas das edições da Vitamina BD foram preparadas em acordo as produções SAF.

Ainda sobre os conflitos dos Balcãs há de referir que em 1993, a apatia das pessoas e frustração pelo o que acontecia, levou aos espanhóis Max e Pere Joan a criarem o fanzine Nosotros Somos Los Muertos. O primeiro número (ou número zero ou apenas sem número por ser um monográfico) era um “fanzine-manifesto” mas a experiência de auto-edição, sem espartilhos profissionais, levou a estes dois autores a continuarem com o título para uma revista que permitiu uma renovação da BD espanhola, completamente estagnada princípios dos 90. Alguns exemplares deste fanzine chegaram a circular no Salão do Porto (de 1993) e a BD chegou a ser publicada no Quadrado #1 (2ª série) em Agosto de 1995… Nesse mesmo ano, o belga Hermann faz sair Sarajevo-Tango que apesar da boa vontade do autor em chamar a atenção ao conflito militar e de ridicularizar os “senhores do mundo” trata-se de uma obra demasiada comprometida com a indústria acéfala da BD franco-belga (história de acção num álbum típico a cores) que infelizmente perde a sua validade artística. Felizmente a Levoir, editora desta Colecção Novela Gráfica, preferiu lançar o Fax de Sarajevo embora o esforço deveria ser para algum dos vários livros do maltês Joe Sacco sobre este conflito, especialmente para Safe area : Gorazde : the war un eastern Bosnia 1992-95 (que esteve exposto no Salão Lisboa 2003), uma investigação jornalística e por isso mesmo um relato mais exacto e realista do que se passou. É um livro que exige alguma força de espírito para ler dadas as atrocidades exibidas, muito mais pesadas do que qualquer obra aqui referida. Outro autor que também contribuiu no Salão Lisboa de 2003 foi o sérvio Aleksandar Zograf, que mostrou o “outro lado da barricada”, sob o regime desse porco humano chamado Slobodan Milošević, em Regards from Serbia – este título então duvidamos que alguma vez a Levoir tenha a coragem de o publicar! Por fim e voltando ao Quadrado – #6, 3ª série, Maio 2004 – há ainda o Cão Capacho Bósnio, dos suecos Max Andersson e Lars Sjunnesson, que é uma viagem surrealista nos Balcãs nos finais dos anos 90, acompanhados pelo “cadáver do Presidente Tito“, que também cá esteve em 2005 dentro de um frigorífico.

Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal.

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Recuerdos de 22 de Abril

Foi uma grande e Singular festaRemember 22 Abril 2017!

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Ramos no CPBD

Manuel João Ramos -CPBD Jun.17

“Eu e a BD” – Palestra pelo Prof. Manuel João Ramos – 24 Junho 2017 – às 16h – Sede do Clube Português de Banda Desenhada: Avenida do Brasil, 52-A, Reboleira, Amadora.

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Cinema(s)

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Inaugurou ontem a 13ª edição do Fest – Festival Novos Realizadores Novo Cinema, em Espinho com Tom of Finland, o filme biográfico do nome artístico de Touko Laaksonen (1920-1991), artista comercial que é um ícone da arte homo-erótica do século passado –  curiosamente as BLX nada tem dele, é aquela ligeira homofobia, topam? O filme terá estreia comercial portuguesa no dia 6 de Julho.

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Foi no primeiro fim-de-semana em Beja que vimos esta fotografia com o José Smith Vargas (no meio) no Diário de Notícias. A razão dela é que ele participa no filme A Fábrica de Nada de Pedro Pinho, que venceu o Prémio FIPRESCI, da Federação Internacional de Críticos de Cinema em Cannes. Quanto à sua exibição em salas de cinemas nada sabemos…

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